O dia do Portugal possível.


São sem dúvida insondáveis os critérios que levam à escolha dos dias feriados. Mas se a importância histórica das datas fosse determinante na atribuição desse estatuto então 25 de Novembro seria feriado nacional pois a sociedade portuguesa é muito mais o resultado do 25 de Novembro de 1975 do que do 25 de Abril de 1974. Das bravatas castrenses de Spínola tal como das divagações de Vasco Gonçalves ou até do nacional porreirismo de Otelo pouco nos sobrou para lá dumas recordações tão pitorescas quanto anacrónicas. O que somos nasceu muito mais dos compromissos estabelecidos a 25 de Novembro de 1975 do que de qualquer outro processo, revolucionário ou não. Ou talvez o mais verdadeiro seja o facto de o 25 de Novembro de 1975 ser a mais portuguesa das datas da nossa História recente. Para o melhor e para o pior, lá estão o nosso horror ao conflito, os compromissos e as camaradagens entre vencedores e vencidos e sobretudo a necessidade de encontrarmos uma narrativa suficientemente reconfortante para todos. A 25 de Novembro de 1975, os protagonistas do poder assumiram oficialmente a necessidade de passarmos a viver habitualmente no país que era o possível. Para trás ficara aproximadamente um ano do qual, consoante as sensibilidades, ora se diz que o país esteve à beira duma ditadura comunista ou em processo revolucionário. Digamos que estas são as versões convenientes dos factos. Ou seja nada disto é necessariamente mentira mas corresponde apenas uma parte da verdade.


Os portugueses acreditaram (e acreditam) que não seria mau que o Estado tomasse conta das empresas pois um estado tutelar era algo a que estavam habituados mas sendo ferozmente individualistas jamais aceitariam que a colectivização passasse para o seu quotidiano. O diálogo sobre a posse da enxada que “é minha não é da cooperativa” no documentário “Torre Bela” ilustra esse povo sequioso por ter – não por dividir e muito menos por usufruir em comum o que quer que fosse.


Passados os primeiros entusiasmos com a liberdade, os portugueses pareciam mais interessados em usufruir o prazer de consumir novos electrodomésticos, fossem eles televisões ou panelas eléctricas, ir de férias, vestir-se descomprometidamente ou encomendar marisco – gestos banais mas até aí tidos como ‘coisa dos outros’ – do que em actividades de militância política. A sua libertação era a do quotidiano e a dos costumes, por isso esgotavam as sessões dos filmes que lhes parecessem pornográficos e mostravam-se arredios às películas que intelectuais, anteriormente da oposição e agora “ao serviço da cultura”, não só lhes traziam da Bulgária e da URSS, como asseveravam ser imprescindíveis à sua formação. Este desacerto entre o gosto das massas e os objectivos das suas auto-denominadas vanguardas intelectuais é uma fonte permanente de azedume para estas últimas porque, como infelizmente bem sabemos, dependem dos dinheiros públicos mas não conseguem ter público. É certo que em 1974 não se pensava sequer em questionar o supremo acerto do dirigismo estatal subjacente a este tipo de “política cultural”. Mas a disparidade entre aquilo que o povo queria ver e aquilo que os teóricos da revolução pretendiam que o povo visse gerou medidas fantásticas como a “ofensiva anti-sexy” do governo e das empresas cinematográficas que, logo em Novembro de 1974, escassos meses após a censura ter sido oficialmente abolida, determinaram que fitas que como “Amor entre mulheres” ou “Sofia e a educação sexual” eram “ideológica ou moralmente agressivas” e deveriam ser substituídas por filmes de “temática política” ou de “características diferentes”. Rapidamente o governo de então teve outras ofensivas com que se ocupar e, em Abril de 1975, até na Marinha Grande a ofensiva anti-sexy parecia perdida pelo menos a fazer fé nos comunicados emitidos pelo PCP a propósito dum espectáculo de strip-tease que o “reaccionário” Vasco Morgado pretendia levar à cena na terra do “soviete” português. Bem podia o PCP denunciar que se estava perante um espectáculo que reflectia “as mais degradantes concepções e vícios de um capitalismo moribundo e desesperado que recorre a todos os meios da depravação com vista, por um lado, à conquista do lucro fácil e, por outro, a estimular instintos inferiores” e avisar que o objectivo do dito show era “desviar a atenção das massas trabalhadoras dos seus reais problemas e interesses, pelos caminhos da alienação”. E por mais que o Sindicato dos Vidreiros assinasse também este comunicado a verdade é que a classe operária não se fazia rogada para encher as salas e os bolsos de Vasco Morgado ou ir ao Vox, Politeama e Pathé atraída pelas tais películas “ideológica ou moralmente agressivas”.


Com mais ou menos folclore, campanhas de dinamização e ocupações, não creio que o PCP tenha mantido muitas ilusões acerca da sua real capacidade para impor uma ditadura comunista em Portugal. Nem o tempo – estava-se nos anos 70 – nem o espaço – o país mais ocidental da Europa – permitiam acalentar esse tipo de desígnios. A via legalista revelou-se muito mais eficaz e ditadura alguma que o PCP tivesse instituído teria resistido ou sequer moldado a nossa vida tanto como a Constituição de 1976 e suas diversas declinações legais em que o PCP se especializou. Por outro lado convém que sejamos modestos nestas nossas ânsias de destinos singulares que tanto nos levam ao Quinto Império quanto ao imaginário da Cuba da Europa. Portugal, que sempre se achou tão importante que tem preferido pensar que foi uma tolice a decisão dos ministros de D. João VI de transferirem a capital do reino para o Brasil, também lhe custa muito aceitar que em 1974 provavelmente havia menos interessados, na cena internacional, em controlar Lisboa do que em controlar Luanda. Mas por mais mossa que isso nos faça no orgulho a verdade é que a nossa Revolução acabou 14 dias após a independência de Angola, pois não só o frenesim revolucionário já não fazia falta alguma, como se estava a tornar num verdadeiro embaraço e todos os protagonistas não só queriam viver habitualmente como, à excepção da extrema-esquerda, o podiam fazer sem perder a face: o PCP apostava na defesa legal das “conquistas de Abril”, garantia a sobrevivência e a dignidade institucional graças à sua omnipresença no aparelho de Estado e mantinha inabalável a superioridade moral que o leva a dividir os portugueses em particular e o mundo em geral em bons e maus, cultos e incultos, de esquerda ou de direita. Os militares vitoriosos do golpe eram os heróis possíveis por terem salvado o país do comunismo, sendo esta redenção tão mais retoricamente avantajada e celebrada quanto se subestimava o facto de os mesmos militares tão anti-comunistas em Portugal terem chamado libertação à implantação de regimes comunistas em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé. O CDS e o PPD ganharam direito a existir sem terem de fazer profissão de fé anti-fascista diária. Mário Soares confirmava-se como o primeiro grande líder político do pós-25 de Abril. Melhor ou mais português era de facto impossível.


Em pouco mais de um ano tínhamos passado da exaltação da pátria pluri-continental com quinhentos anos à revolução socialista. E de repente, nesse dia 25 de Novembro de 1975, à semelhança de viajantes dum carrossel cuja música se extinguisse, tudo terminou e nós descobrimo-nos sozinhos no que até há pouco era um animado arraial. Nunca percebemos exactamente o que aconteceu a 25 de Novembro de 1975 mas foi a partir daí que nos começámos a render à evidência que não existiam mais golpes mágicos susceptíveis de nos mudar o destino. Nesse dia ficámos sem fantasmas da História nem promissores amanhãs das ideologias. Ficámos sós, subitamente sérios e adultos, no Portugal possível.


PÚBLICO, 25 de Novembro

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