Alcácer Quibir, 4 de Agosto de 1578.


Alcácer Quibir é para os portugueses, o acontecimento que simboliza o desastre supremo que conduziu o país para o inevitável e indesejado desaparecimento como entidade independente. Numa história quase milenar, a batalha é ainda nos nossos dias, um marco que concita o interesse e estudo da época em que se travou e consequentemente, suscita paixões, alimenta rivalidades anacrónicas e é seguro manancial de ingressos para os editores que publicam obras a ela dedicadas.

O que parece ser claro para todos, consiste no facto de a partir de 4 de Agosto de 1578, Portugal ter dado por finda a tentativa de penetração no reino xerifino, desistindo de um hipotético Algarve de Além Mar que engrandeceria o reino e a Cristandade. Ceuta, Tânger ou Mazagão, permaneceriam durante algum tempo como possessões da coroa portuguesa, mas sem a verdadeira expressão de polos dinamizadores de testas de ponte para futuras expedições de conquista e ocupação de Marrocos.

Um dos aspectos geralmente menosprezado por muitos, é a não exclusividade do ímpeto expansionista português naquelas paragens, pois anteriormente, o avô do rei D. Sebastião - Carlos V do Sacro-Império e I de Espanha -, ter organizado expedições às principais cidades portuárias do norte de África, onde a epopeia da campanha de Tunes - na qual os portugueses participaram de forma ostensiva -, preencheu o imaginário de uma importante camada da população da Europa que nesse momento estava directamente ameaçada pelo avanço terrestre otomano em direcção às planícies da Hungria e no mar, às Colunas de Hércules, a porta do Atlântico. A fervilhante actividade da pirataria barbaresca que mantinha laços de vassalagem com o sultão de Istambul, perturbava a segurança do comércio que se alargara a todos os oceanos do planeta, mercê da inauguração da época das grandes descobertas portuguesas - e mais tarde espanholas -, da alvorada do século XV. A insegurança das rotas marítimas mediterrânicas, ocasionará a progressiva transferência das praças comerciais e financeiras para a orla do Atlântico, onde Lisboa e as cidades da Hansa e das imediações do Canal da Mancha, substituem os ameaçados empório italianos de Veneza, e Florença, já em lento mas irreversível declínio. Os reinos cristãos, onde o Império vivia a hora da união pessoal com a Espanha recentemente unificada por Fernando e Isabel - os Reis Católicos -, reagem na medida das possibilidades oferecidas pelos hiatos que ocorrem episodicamente entre uma ou outra guerra com a França que se expande em direcção ao Reno, ou por provisórias tréguas entre as potências cristãs que encontram na Reforma, um novo pretexto para a luta pelo engrandecimento territorial, firmar de independências relativas à vaga suserania do imperador e consolidação do poder e das finanças dos príncipes da Era Moderna. A Santa Liga que vence em Lepanto, insere-se nesta tentativa de contenção da invasão turca e muçulmana do Ocidente e na liquidação do despontar de uma talassocracia mediterrânica que conduziria a um novo e prolongado período de fecho do Mediterrâneo à livre navegação e progresso mercantil que décadas antes, despoletara a riqueza na península itálica, irradiando o experimentalismo, a nova arte da Renascença e as inéditas concepções de organização dos Estados, para toda a Europa ocidental e do norte.

Paralelamente ao nascer desse mundo novo que conhecia novos continentes, navegava em novos oceanos e via estrelas até então ignoradas, continua a persistir o espírito cavaleiresco de antanho, onde a honra, a glória que se encontrava na rija e leal peleja entre iguais, mitigava a rudeza do som do metal das moedas que eram agora o centro das atenções de todos os agentes políticos que conformavam e confirmavam a vertiginosa ascensão de uma burguesia enriquecida que almeja exercer directamente o poder do Estado, ligando-se à velha nobreza da terra, da vida militar e do funcionalismo do Paço. Em pleno século XVI, veremos Francisco I de França e Henrique VIII de Inglaterra no campo de justas do Drap d'Or, onde alianças de ocasião se gizavam, tendo como pano de fundo o cumprimento do ideal de cavalaria dos seus maiores. É a época das espectaculares armaduras alemãs, executadas por artesãos que a pretexto das necessidades de protecção militar, exaltavam o príncipe à semelhança dos deuses pagãos da desaparecida Roma imperial e pré-constantiniana. Assim, as encomendas a armeiros como Seusenhofer de Insbruque, Kunz Lochner de Nuremberga ou Anton Peffenhauser de Augsburgo, evidenciavam o esplendor do reencontro do luxo que prestigiava Estados e príncipes, numa silenciosa procura da proeminência. Aliás, D. Sebastião usou uma rutilante armadura cerimonial de Peffenhauser - presente hoje na coleção da Real Armeria de Madrid -, profusamente decorada com motivos alegóricos e até pouco consentâneos com a figura do monarca paladino da Cristandade (ver imagem alusiva a este texto).
Este revivalismo medievalesco tem sido uma constante nas nossas sociedades, pois reemerge periodicamente, adaptando-se ao gosto de um dado momento histórico e social e em conformidade com o rescaldo de turbulentas épocas de profundas e revolucionárias mutações políticas, sociais e económicas. Assim, em pleno século XIX da Revolução Industrial, assistimos à construção de novas catedrais ao gosto gótico e mesmo em Portugal, a influência do rei romântico Fernando II de Saxe-Coburgo-Gotha, vinca entre nós o pendor medievalizante que Herculano também exaltara - e por vezes abusivamente interpretara - nas letras. Nos anos trinta do século passado, a Europa viveu um conturbado período de reordenamento das hegemonias e na Alemanha, surgem movimentos onde o ocultismo se conjuga com o apelo aos grandes mitos pré-cristãos. O próprio lugar-tenente de Hitler, o chefe da Ordem Negra, Heinrich Himmler, patrocina e fianancia a demanda de um nebuloso passado perdido e reconstitui a Távola Redonda, agora imbuída do espírito rácico e secretista do nacional-socialismo. Uma grande mesa num reconstruído castelo ao gosto da "época das trevas", um complexo cerimonial iniciático e a Nova Bíblia do Reich, o Mein Kampf, consagram este assumido desejo de regresso ao passado de uma considerada perdida Idade do Ouro que regressaria como obra do ferro e do sangue dos puros e novéis Cavaleiros Tetónicos, agora montados em corcéis de aço e com as lanças substituídas por canhões.

A batalha de Alcácer Quibir pode também ser considerada, como a primeira tentativa consistente de modificação do eixo de intervenção portuguesa na geopolítica mundial, num momento em que despontam potenciais rivais ao predomínio luso-espanhol das grandes rotas de comércio marítimo. O comércio oriental triangular, as grandes distancias a percorrer por frotas que enfrentam todo o tipo de mortais perigos e finalmente, os escassos recursos demográficos de um reino que não podia almejar a uma conquista territorial no subcontinente indiano, ou mais para leste, no Império do Meio, consistiram em factores não negligenciáveis para a viragem nas prioridades portuguesas, onde o Brasil, pelo seu gigantismo e já suspeitado potencial como base de fixação de gentes geradoras de riqueza, carecia de uma decidida política de ocupação da costa e do reconhecimento do hinterland. Paralelamente, as necessidades da navegação e o comércio africano, impunham a manutenção dos entrepostos que desde as portas do Mediterrâneo - Tânger e Ceuta -, até S. Paulo de Luanda, pontilhavam toda a costa ocidental do continente negro, fazendo do Atlântico Sul, um lago português durante as derradeiras décadas de quinhentos. À época, já há muito eclodira a revolta holandesa contra o domínio espanhol e a aliança das potências do norte protestante - Inglaterra, Países Baixos e mais para leste, a Dinamarca e a Suécia -, podia num futuro não muito longínquo, ameaçar o monopólio ibérico das riquezas propiciadas pelos novos mundos recém-descobertos ou conquistados. Na opinião de alguns historiadores e economistas, Marrocos surge também como um fértil terreno propício ao fornecimento das necessidades cerealíferas de Portugal e até, do conjunto peninsular, mas o aspecto estratégico-militar deverá ser considerado como a razão primeira da passagem a África, há muito anunciada desde os tempos de D. Manuel I e de D. João III.

A personalidade do rei é um vasto campo de suposições muitas das vezes em absoluta e mútua dissonância. A sua educação e o importantíssimo legado cultural e espiritual do passado da sua grei, davam-lhe o pretexto ideológico para a decidida intervenção em Marrocos, no preciso momento da grande viragem e deslocação da política portuguesa - até aí centrada no Índico e Pacífico Ocidental - para o Atlântico.

É este o verdadeiro contexto a considerar para o apuramento das causas de Alcácer Quibir e das incógnitas inerentes, que para um mero exercício de história comparada, possamos hoje estudar. Se a batalha conduziu a uma momentânea perda da independência nacional - aliás mitigada pela existência de jure de uma Monarquia Dual, historicamente apanágio da Casa de Áustria -, marcou também o progressivo apagar dos fumos de incensos e perfumes indianos, substituídos pelas novas preciosidades da economia Moderna, como o açúcar, as madeiras e os metais do verdadeiro El Dorado lusitano, o Brasil.

A batalha como episódio militar, continuará a suscitar ao longo dos séculos, a controvérsia própria dos grandes acontecimentos. Se foi mal conduzida e organizada, se obedeceu a uma errónea desadequação do planeamento e movimento militar num ambiente hostil e de clima e topografia adversos, isso é o objecto reservado à especialidade das academias castrenses, pois os seus pressupostos são ainda hoje repetíveis por animosos e talvez bem intencionados novos cavaleiros. Mas isso é outra história.
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