Israel e Gaza.





Imaginem-se em 1927.


O império Otomano, ainda sob a égide do califado, teocrático, imperialista e expansionista, acabava de ser retalhado pelas potências vencedoras da 1ª Guerra Mundial. De um dia para o outro, a Inglaterra e a França viam-se com mais possessões que as que podiam suportar politicamente (ganhava força a opinião anti-colonialista) e pensaram “bem, vamos lá ver-nos livres disto - um belo pedaço de deserto - e tentar dividir o mal pelas aldeias. Mas o Suez fica aqui do nosso lado, bem entendido”.


Ao contrário do que se fez com, por exemplo, a antiga Jugoslávia (a ideia de heterogeneidade étnica e cultural nos Balcãs deu no que deu…), pensaram em dividir aquilo em “sectores” religioso-culturais, tendo em conta a proporção relativa. Muito grosso modo, considerava-se o Líbano, em mãos gaulesas, como o pedacito de terra “nominalmente” cristão e a Palestina / Transjordânia como o pedacito dos judeus e dos árabes (interessante a insurgência financiada pela coroa britânica contra os turcos, anos antes, da qual temos o expoente máximo no Lawrence da Arábia). A estes últimos, maioritários, deu-se cerca de 80% das possessões inglesas e formou-se aquilo que é, hoje e de modo muito lato, a Jordânia (promessa antiga aos Hashemitas). Aos Judeus (os tais Sionistas), que vinham a “pressionar” a administração inglesa há muito tempo - mesmo por via, imagine-se, de atentados (!) - foi permitida a criação de um pequeno estado entre o Jordão e o mar.


Teoricamente, todos eles deveriam acolher, de forma igual, cidadãos de todas as etnias. Jerusalém, aliás, seria uma cidade “internacional”, multiétnica e multicultural. Que bela imagem! Ora aqui é que o gato foi às filhozes… insultar o califado com o estabelecimento de um estado hebraico? A Liga Árabe, chorando a derrocada de um império teocrático decadente, não poderia tolerar ingerências. E havia que aproveitar a oportunidade da confusão do pós-guerra para fazer as suas reinvindicações territoriais (para mais informações sobre o humanismo, filantropia e mundivisão da Liga Árabe, é só procurar informação). Juntaram-se todos os vizinhos árabes da zona e foram visitar Israel. Como? Ao renegar a resolução fundadora da ONU - a tal 181- e a expulsar todos os judeus de Jerusalém. Deu-se aqui a primeira guerra israelo-árabe: a guerra da independência, que redundou na vitória hebraica (pouco ajudada pelos “aliados” e armada pelos soviéticos, imagine-se, se bem que esses vendessem armas a quem lhes pagasse) da qual surgiu a fundação do estado de Israel.


Ao contrário do que é normalmente propalado, nem Israel surge como por magia depois da 2ª guerra (é claro que as massas de refugiados ajudaram a ganhar consistência demográfica, mas a ideia de nação ganha forma e origem com a desagregação do império otomano e consubstancia-se ainda antes de 1920 com Balfour e mais tarde com o tratado franco-britânico de divisão da Palestina), nem, dizia, “rouba” terras a ninguém. Se acaba por declarar independência com mais terras do que as inicialmente previstas foi porque os seus opositores a atacaram militarmente e perderam o domínio “fair and square” de importantes porções de terreno, de valor estratégico. É isto, aliás, que define a história de Israel: constantemente sob ameaça, e nunca como potência atacante, tem vindo a ser atacada, a retaliar e a reclamar mais terra. Em 1967, na guerra dos 6 dias, a coligação de Nasser sofre uma derrota humilhante, que redundou no controle da Cisjordânia, montes Golâ, faixa de Gaza e Jerusalém oriental. Mais uma pequena tentativa no Yom Kipur e, finalmente, os países vizinhos, como entidades soberanas, decidem mudar de estratégia (ou, esperamos, mudaram definitivamente de ideias, no caso recente do Egipto e da Jordania)… e começaram a usar o povo palestiniano como arma de arremesso. Primeiro, vedam-lhe a entrada nas próprias fronteiras. Depois, como na Síria, por exemplo, chegam mesmo a defrontar militarmente a OLP. Como pequena nota, esta última foi criada no Líbano, país esmagado - cultural e politicamente - pela enchente de refugiados palestinianos, provenientes da Siria, Jordânia, Egipto e territórios ocupados, no dealbar das várias guerras, por Israel. Isto é, continuam a financiar a compra de armas, mas nunca vão além de uns campos de refugiados infectos, junto às fronteiras. Continuam a dizer que choram o pobre povo palestiniano, mas com uma ajuda humanitária e social quase negligível - são a União Europeia e os EUA que mais ajudam. Em suma, utilizam (estes e as restantes nações árabes, da qual muito se destaca ultimamente o Irão), de forma amoral, o povo palestiniano como a ferida aberta na região, de forma a legitimar a hostilidade perante Israel. Forçando-o contra as fronteiras. Estrangulando-lhe o acesso a bens essenciais. Mas enfim, alongo-me na questão… pergunto-vos apenas: em 60 anos de história, Israel não conheceu senão deprezo, ódio e agressão por parte dos vizinhos. Por outra razão que não o despeito imperialista e fundamentalista. Se não reconhecemos esta perspectiva da história, se nos alimentamos de distorções, se nos recusamos a aceitar o direito à existência de um povo só porque alguns dos seus membros são ricos… o que somos? Se continuamos a alimentar esta “malsance” visceral contra um povo que, unicamente, professa uma religião diferente da nossa, o que seremos? O que nos leva a distanciar-nos e a diferenciar-nos tanto dos judeus? Porque é que são mentirosos? Porque é que têm cordelinhos em todo o lado? E as outras confissões, não serão assim? Não haverá pessoas boas e más em todo o lado? Porque é que os comentários “inócuos” de tantas pessoas e tantos pseudo-reporteres têm tão estranhamente a mesma - repare a MESMA - retórica da Alemanha e da Rússia dos anos 30?


Continua-se, hoje em dia, a cultivar o ódio, o culto da morte, o desprezo pela vida (relembro os muito recentes e ilustrativos casos no Afeganistão, onde um tipo se rebentou no mercado para matar um polícia, ceifando 10 inocentes; ou a do outro que rebentou uma escola - e 70 alunos - porque a confundiu com o local onde decorria uma reunião tribal. O fundamento é o mesmo, o meio é o mesmo… e o fim?).


Por último, respondam-me a isto: se o povo palestiniano é oprimido, porque é que nos esquecemos da Cisjordânia? Porque é que ninguém comenta a divisão da Fatah e do Hamas? Porque é que ninguém comenta que o que os define é simples: a Fatah reconhece o direito e Israel existir. O Hamas não. Porque há-de Israel negociar com estes últimos?
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