666

Muro de Berlim.


Dia 9 (segunda-feira), o mundo celebrou a queda do Muro de Berlim, o símbolo mais inequívoco de um universo opressivo, nascido do equilíbrio do terror nuclear entre as duas superpotências que dominaram a geopolítica do pós-guerra. O mundo inteiro? Não. Numa 'aldeia' de irredutíveis comunistas há quem prefira celebrar não o muro caído mas o muro ainda erguido, entre 1961 e 1989, cortando ao meio um país, cortando ao meio uma cidade de onde os próprios habitantes não podiam sair por imposição de uma potência estrangeira - a URSS - que a ocupava militarmente. Este Astérix de sinal contrário, adepto das legiões romanas com sotaque russo, é o Avante! , órgão central do Partido Comunista Português, que em editorial derrama lágrimas pela queda do império soviético, suspirando de nostalgia pela Revolução de Outubro.

"A constituição do primeiro Estado operário; as conquistas civilizacionais – políticas, sociais, económicas e culturais - alcançadas na União Soviética nascida da Revolução de Outubro; o processo de construção do socialismo então iniciado e os seus êxitos; as múltiplas repercussões no mundo de todo esse exaltante processo, dando nova dimensão à luta de libertação nacional dos trabalhadores e dos povos e à luta pela paz – e, com tudo isso e por tudo isso, o papel que a URSS passou a desempenhar à escala planetária, criaram novas e promissoras perspectivas num mundo até então submetido ao domínio absoluto do sistema capitalista, apresentado como uma «inevitabilidade» decorrente de uma «ordem natural das coisas» fabricada pela ideologia dominante à medida dos interesses do grande capital internacional", escreve o Avante!. Como se vivêssemos no mundo pré-1989, antes da queda do comunismo nas capitais do Leste. Como se vivêssemos no mundo pré-1973, antes de Soljenitsine ter feito a minuciosa descrição do universo concentracionário dos gulags na mais emblemática das suas obras. Como se vivêssemos no mundo pré-1956, antes da revelação - pelo próprio secretário-geral do Partido Comunista soviético, Nikita Khrutchov - dos crimes cometidos por Estaline, o czar vermelho desse falso "primeiro Estado operário" que os comunistas ortodoxos portugueses, possuídos de um saudosismo serôdio, agora glorificam.

"A derrota do socialismo, com o desaparecimento da União Soviética e da comunidade socialista do Leste da Europa, constituiu uma tragédia, não apenas para os povos desses países mas para toda a humanidade: com o capitalismo dominante, o mundo é, hoje, menos democrático, menos livre, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico", refere ainda o editorial do órgão oficial do PCP.

Nem por um momento ocorre ao Avante! reflectir sobre o que levou essas sociedades tão progressistas a implodir estrondosamente e os trabalhadores 'libertados' de Leste a correr rumo à 'opressão' do Ocidente. É que essas sociedades se fundavam numa mentira que o PCP gosta de repetir ainda hoje: não havia Estados-operários mas ditaduras burocráticas, assentes num capitalismo de Estado para o qual cada cidadão era um sujeito destituído de direitos - começando pelos direitos laborais. O próprio direito à greve era severamente reprimido, como experimentaram na pele os operários que se rebelaram em Berlim-Leste (1953) ou na Polónia (1956, 1970, 1981), já para não mencionar a Roménia do camarada Ceaucescu, que mandava construir os seus faustosos palácios com mão-de-obra escrava.

Este era o falso ''paraíso socialista' que terminou em 1989. O mundo ficou mais livre depois da queda do Muro - depois da queda de todos os muros do Báltico ao Adriático. E ficou também mais igualitário e justo. Porque nenhuma liberdade era realmente digna desse nome na Europa quando permitíamos, por acção ou omissão, que metade do continente ainda não tivesse perdido as grilhetas, para usar uma expressão marxista que o Avante! só emprega quando lhe convém. Como se houvesse alguma superioridade moral nas grilhetas comunistas.

Carta aberta a José Sócrates.


Autor: João Miguel Tavares

Excelentíssimo senhor primeiro-ministro: Sensibilizado com o que tudo indica ser mais uma triste confusão envolvendo o senhor e o seu grande amigo Armando Vara, venho desde já solidarizar-me com a sua pessoa, vítima de uma nova e terrível injustiça. Quererem agora pô-lo numa telenovela - perdoe-me o neologismo - digna do horário nobre da TVI é mais um sintoma do atraso a que chegámos e da falta de atenção das pessoas para as palavras que tão sabiamente proferiu aquando do último congresso do PS:”Em democracia, quem governa é quem o povo escolhe, e não um qualquer director de jornal ou uma qualquer estação de televisão.” O senhor acabou de ser reeleito, o tal director de jornal já se foi embora, a referida estação de televisão mudou de gerência, e mesmo assim continuam a importuná-lo. Que vergonha.
Embora no momento em que escrevo estas linhas não sejam ainda claros todos os contornos das suas amigáveis conversas, parece-me desde já evidente que este caso só pode estar baseado num enorme mal-entendido, provocado pelo facto de o senhor ter a infelicidade de estar para as trapalhadas como o pólen para as abelhas - há aí uma química azarada que não se explica. Os meses passam, as legislaturas sucedem-se, os primos revezam-se e o senhor engenheiro continua a ser alvo de campanhas negras, cabalas, urdiduras e toda a espécie de maldades que podem ser orquestradas contra um primeiro-ministro. Nem um mineiro de carvão tem tanto negrume à sua volta. Depois da licenciatura na Independente, depois dos projectos de engenharia da Guarda, depois do apartamento da Rua Braamcamp, depois do processo Cova da Beira, depois do caso Freeport, eis que a “Face Oculta”, essa investigação com nome de bar de alterne, tinha de vir incomodar uma pessoa tão ocupada. Jesus Cristo nas mãos dos romanos foi mais poupado do que o senhor engenheiro tem sido pela joint venture investigação criminal/comunicação social. Uma infâmia.
Mas eu não tenho a menor dúvida, senhor engenheiro, de que vossa excelência é uma pessoa tão impoluta como as águas do Tejo, tirando aquela parte onde desagua o Trancão. E não duvido por um momento que aquilo que mais deseja é o bem do Pais. É isso que Portugal teima em não perceber: quando uma pessoa quer o melhor para o País e está simultaneamente convencida de que ela própria é a melhor coisa que o País tem, é natural que haja um certo entusiasmo na resolução de problemas, incluindo um ou outro que possa sair fora da sua alçada. Desde quando o excesso de voluntarismo é pecado? Mas eu estou consigo, caro senhor engenheiro. E, com alguma sorte, o procurador-geral da República também.
Atentamente, JMT.

Caviar e petingas.

Anacleto Louçã não se mistura com as peixeiras

Quando questionado pelos jornalistas sobre o porquê de tal atitude, o novo líder dos intelectuais e proletários terá dito que tal procedimento é uma “questão de princípio”, já que tal contacto “cria uma dinâmica de espectáculo” e parece que o líder partidário pretende um contacto com as pessoas, sem populismo, sendo que é ele que escolhe “as pessoas com quem quer(o) contactar”. Fosse outro líder qualquer e diríamos que há aqui uma forte desconsideração, talvez até discriminação em relação a um grupo profissional. Poderíamos até acrescentar, se fôssemos maldosos, que o líder bloquista mostra a verdadeira essência snobista e elitista da sua agremiação, mas certamente a explicação será outra. Quanto ao espectáculo, faz muito bem o dr. Louçã em recusá-lo, mas a ser assim será que vamos deixar de ver os cuspidores de fogo, malabaristas, contorcionistas, artistas circenses e outros tantos que tanto contribuem para enobrecer a política em geral e a campanha do Bloco, em particular?

Hoje foi na Moita do Ribatejo - João Augusto Moura.

Uma lição vinda da Argentina.


Numa altura em que, em todo o mundo, os poderes públicos procuram condicionar os comportamentos privados (por enquanto a norma tem sido a proibição ou a criação de obrigações – um dia destes chegaremos à crimininalização) é notável este acordão do Supremo Tribunal Argentino (meus destaques):

O Supremo Tribunal da Argentina despenalizou o consumo de marijuana para uso próprio, isto depois da condenação de cinco jovens por terem com eles pequenas quantidades desta droga.

Segundo este tribunal, é inconstitucional punir alguém por consumir drogas, uma vez que as acções privadas do homem que não violem a ordem e a moral pública e não prejudiquem terceiros são acções que não recaem sobre a autoridades dos magistrados.

O acórdão deste tribunal defende que cada adulto é livre de ter o estilo de vida que quiser sem interferência do Estado e que é necessário proteger a vida privada dos adultos e a capacidade de cada um para decidir a sua conduta.

Vermelhices


Só espero que, caso os resultados desportivos voltem a estar ao nível já habitual, os contribuintes não venham a ser forçados – directa ou indirectamente – a financiar também a salvação do Benfica…

Benfica hipoteca receitas de 10 anos para pagar jogadores

O contrato assinado com a Sagres no dia 21 de Julho, no valor de 40 milhões de euros e válido por 10 anos, é a principal garantia prevista no plano de endividamento junto da banca. Segundo as fontes contactadas pelo i, o clube presidido por Luís Filipe Vieira estará, neste momento, a ultimar detalhes de um financiamento junto do BES, tendo dado como garantia do empréstimo as receitas do acordo celebrado com a Centralcer, dona da marca de cerveja Sagres.

Até 2021, os encarnados receberão da cervejeira 40 milhões de euros. Caso o Benfica falhe o pagamento dos empréstimos que entretanto vierem a ser contraídos, este dinheiro seguirá directo para o banco, para abater o passivo.

“Salvaguardámos o futuro do Benfica”, disse Vieira, quando assinou com a Sagres. Talvez não o quisesse dizer mas salvação também passa pela conquista de resultados desportivos e foi por isso que jogou tudo no fortalecimento da equipa colocada à disposição de Jesus. “Temos serenidade para investir no core business e ganhar não um mas dois ou três campeonatos seguidos”, garantiu.

Risco: estratégia de Luís Filipe Vieira joga-se dentro do campo

Qual é o principal negócio da Benfica, SAD? O futebol. A viabilidade da sociedade desportiva só é assegurada com resultados desportivos e, por esse ponto de vista, o investimento de 24 milhões de euros em reforços – como escreveu o i, garantido através do contrato de 40 milhões assinado com a Sagres para os próximos 12 anos – justifica-se. E se a bola não entrar? E se o Benfica não for campeão e não garantir o acesso à Liga dos Campeões? Aí tudo fica em causa: o passivo (agravado no imediato), a receita futura (comprometida) e a decisão política da administração (Luís Filipe Vieira será o alvo por mais uma época falhada).