Festival Taurino Misto de beneficiência a favor da Casa do Povo de Santo António das Areias e Homenagem a Lourenço Mourato
Cavaleiros: - João Moura - Joaquim Bastinhas - Tito Semedo - Marcos Tenório - Miguel Moura Espada: - Luís Procuna Grupo de Forcados: - Amadores de Cascais - Amadores de Portalegre 6 Touros da Ganadaria Rodolfo André Proença
Não estranhe se em breve começar a ouvir os acordes do "Ser benfiquista" durante um funeral. A agência funerária Servilusa assinou um protocolo com o benfica que vai permitir aos sócios do clube de Carnide usufruírem de descontos e de serviços personalizados. Os sócios "encarnados" terão acesso a um desconto de 12,5% nos serviços funerários da empresa e podem ainda contar com uma cerimónia personalizada, ao gosto benfiquista obviamente. Entre as possibilidades estão a utilização de elementos alusivos ao clube na urna e até a hipótese de se fazer soar o hino do benfica durante a cerimónia. Um verdadeiro negócio da morte,«à benfica»!
Edouard Manet - "O Toureiro Morto" (1864-65), National Gallery (Washington USA)
Os touros dão fama e fortuna, mas também matam. É o que distingue o toureio de espectáculos como o teatro, por exemplo: na arena morre-se a sério. A crónica de sangue da Festa pode agora ser consultada em Los toros dan y quitan, um site que enumera as centenas de vítimas mortais da tauromaquia, desde diestros de renome a simples curiosos.
O antropólogo e filósofo francês Claude Lévi-Strauss interessou-se pelo fenómeno taurino e reflectiu sobre ele. Xavier Klein, no blog camposyruedos, recorda algumas opiniões do mestre do estruturalismo sobre a matéria. Lévi-Strauss considerava a tauromaquia «um caso de sobrevivência único e atípico», numa sociedade dominada por valores que são tantas vezes a antítese do confronto homem/toiro. Por isso, o filósofo partilhava da opinião daqueles que sublinhavam o apagamento do carácter ritual do toureio e o triunfo da dimensão comercial. Pessimista, temia que, um dia, tudo acabasse numa mascarada, «como os índios que fazem a dança da chuva para agradar aos turistas». As culturas que resistem, salientava, são as que resistem e não transigem quanto aos seus modos de expressão. Essa será a única forma de preservar os valores autênticos do toureio.
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Corrida de touros de gala no Campo Pequeno no dia de celebração da festa a Camões. Nas imagens Garcês: os diestros Manuel Torres (Bombita) e Juan Belmonte (El Fenomeno) em vários momentos das suas actuações.
As atenções do mundo taurino convergem nestes dias para a Feira de Sevilha. Cidade taurina como nenhuma outra, dona de uma praça de beleza ímpar, Sevilha foi berço de extraordinários diestros e, mais do que isso, de um estilo: o toureio sevilhano. Toureio de harmonia e graça, de arte e naturalidade, praticado por espadas como Chicuelo, Pepe Luís Vazquez, Manolo González, Pepín Martín Vazquez e Curro Romero. A retirada deste último, em 2000, poderia ter deixado o toureio sevilhano sem intérpretes de realce - não fosse existir um diestro chamado José António Morante Camacho, mais conhecido como Morante de la Puebla. Para muitos aficionados e analistas da festa, Morante personifica a garantia da sobrevivência de um dos veios mais puros do toureio. É o caso do cronista Álvaro Acevedo, que no nº 3 da revista «Cuadernos de Tauromaquia» (Março de 2009) dedicou um extenso artigo ao matador de Puebla del Rio, a que deu o título «Evolução às origens».
Na opinião de Acevedo, a naturalidade é a característica mais marcante do toureio de Sevilha. «Não há constrangimento nem rigidez, a cintura não se quebra, não há toques firmes, nem o braço se estira para conduzir a investida. A necessidade do mando soluciona-se com a ponta dos dedos, os pulsos e a cintura, sem necessidade de estirar o braço. Tudo é flexibilidade, harmonia e suavidade.»
Numa dada fase da sua carreira, reconhece Acevedo, Morante não era «sevilhano» no que respeitava ao toureio fundamental (passes naturais, pela esquerda ou pela direita, passes de peito). A sua «sevilhania» era visível essencialmente nos detalhes, num kikiriki, num câmbio de mão, numa chicuelina. Hoje em dia, porém, Morante também pratica o estilo de Sevilha no toureio fundamental. Das suas mãos brota «um toureio de naturalidade absoluta, a cintura flexível e a figura erguida», numa forma «de entender a lide baseada no ritmo e em algo quiçá intangível a que chamamos 'graça'». Com o capote desenha verónicas de inexcedível profundidade. Com a muleta mete-se nos costados do touro, quando a necessidade de domínio o justifica, gira em molinetes «abelmontados» e rubrica passes de peito em que a flanela varre o lombo do touro, que desemboca no ombro contrário do toureiro. E tudo isto andando na cara do touro com a cadência e a graciosidade de quem acredita que o acto de um toureiro estar parado «oculta muitos defeitos».