Toureio português, esse desconhecido.





A história do toureio em Portugal é em boa medida desconhecida. Apesar da importância do espectáculo tauromáquico no contexto da cultura popular dos últimos 300 anos, pouquíssimos estudiosos o têm abordado com o rigor científico que deve presidir a toda a investigação. 
As escassas obras de tema taurino que se publicam, têm, na sua maioria, carácter biográfico, com o senão de versarem quase todas sobre figuras contemporâneas, e de misturarem, frequentemente, informação com bajulação. Contam e enumeram factos- mas raramente os encadeiam e explicam. 
À falta de uma panorâmica geral do toureio português, que se aventure até às raízes, colha factos e os interprete, retire conclusões e construa teses, temos de continuar a basear-nos na antiga «História da Tauromaquia – Técnica e Evolução Artística do Toureio», de Jaime Duarte de Almeida, dada à estampa no início dos anos 50 do século passado.
A imprensa taurina, tradicional e electrónica, poderia e deveria ter outro papel. Sobra nela a crítica requentada de espectáculos, a «bronca» de sarjeta, a opinião sem fundamento e o apontamento cor-de-rosa. Falta a reflexão com alguma profundidade, o texto informado e original, que vá para além do conhecimento que se pode colher em qualquer obra de generalidades tauromáquicas.
A acção da Secção de Municípios com Actividade Taurina,  da Associação Nacional de Municípios, é quase secreta. Numa época em que tanto se prega a transparência, os seus documentos não são acessíveis aos cidadãos, mas apenas aos municípios associados; não existem fundações ou outras instituições que promovam e incentivem os estudos taurinos; à parte colecções particulares, não existem museus tauromáquicos nem bibliotecas especializadas. 
Os ventos mudarão? Quem sabe, um dia… Até lá, continuará a reinar o «conhecimento» mais ou menos mitificado, entre a verdade e a ilusão.

A coesão social por António Barreto.



«Certezas com as quais nascemos e vivemos são hoje restos de doutrinas impotentes. O Estado, como configuração política de uma nação e de uma vontade colectiva, é uma caricatura do que foi. O mercado, como lugar de troca, de progresso e de livre escolha, mais parece um embuste. Os direitos individuais, como fonte dos projectos colectivos, são quase esquecidos. Os direitos adquiridos, no que alguns têm de reserva de dignidade e de certeza, são cada vez mais considerados dispensáveis, obsoletos ou descartáveis. A relativa autonomia dos povos livres em combinação com uma razoável independência dos Estados nacionais: eis um equilíbrio delicado que está evidentemente hoje em mau estado. Estas realidades e estes valores estão em causa, fortemente em questão. Sabemos já que não permanecerão como sempre foram. Mas não fazemos a mínima ideia do que serão, naquilo que se transformarão. Não sabemos sequer se a transformação será um progresso. Aliás, esta última noção está ela própria em causa e as nossas gerações aprenderam, ao longo do século XX, que o processo histórico não é sempre progresso. Em tudo o que perdemos, em nome do progresso, incluem-se valores e tradições, culturas e liberdades, costumes e sentimentos cuja falta se faz sentir em permanência. A globalização, a metrópole, as massas, a rapidez, o automatismo, a competitividade e a uniformidade geraram valores contrários à comunidade humana, ao pensamento, à qualidade estética, ao brio e à compaixão. Nem sequer a dimensão do que se ganha é suficiente para esquecer o que se perde. Pode até ganhar-se mais, em proporção, do que se perde. Mas o que se perde é, muitas vezes, uma amputação de humanidade e de cultura.»

A ler na íntegra aqui: http://bit.ly/IMK61Q

Joseph Mallord William Turner, nascido a 23 de Abril de 1775.



Para saber mais: http://bit.ly/Ite9Mq

Sobre a Maestranza.



Até ao próximo dia 29 de Abril, a feira de Sevilha vai animar a arena de uma das mais belas praças de touros do mundo: a Real Maestranza. A propósito deste coso, recorde-se que o seu nome deriva da instituição a que pertence: a Real Maestranza de Caballeria de Sevilha. Fundada em 1670, a Real Maestranza é uma corporação que se destinou inicialmente à preparação militar dos nobres sevilhanos. Pretendia-se deste modo formar oficiais para o exército, que soubessem cavalgar e manejar as armas com destreza. Em 1730, a instituição recebeu do rei Filipe V o privilégio de organizar corridas de touros, o que a levou a construir a praça que hoje se conhece como Real Maestranza. O resultado foi um belíssimo edifício, de arquitectura tardo-barroca. Pormenor importante: o conjunto escultórico que encima o chamado Palco Real, a tribuna de onde os reis assistem às corridas, é da autoria do escultor português Caetano da Costa, nascido em 1711 e emigrado na capital andaluza.

«Eran las cinco en sombra de la tarde!»

Composição gráfica de Francisco Moncada


Poucos meses antes de morrer, fuzilado pelos falangistas, o poeta Federico García Lorca afirmou numa entrevista: «Creo que los toros es la fiesta más culta que hay hoy en el mundo». Culta no sentido de estar fundamente enraizada na cultura ibérica, e nas culturas latino-americanas por ela geradas; e na acepção de fenómeno inspirador de «obras» que integram a cultura universal - no campo das artes plásticas, da literatura ou das artes cénicas. García Lorca deu, ele próprio, um contributo de monta para exaltação literária da Festa, com o seu majestoso «Llanto por la muerte de Ignacio Sánchez Mejías». Para além da poesia, o génio granadino filosofou também sobre o toureio, em escritos como «Teoría y juego del duende». A ligação de Lorca ao universo tauromáquico estendeu-se até ao momento da sua morte: o poeta foi fuzilado junto com dois bandarilheiros anarquistas, Joaquín Arcollas Cabezas e Francisco Galadí Melgar.

Boa onda.