Cruzes e canhotos.

Nesta foto e naquela, quem são, afinal, os "intolerantes" ?

Cada país tem o seu massacre.


No Aventar: 

As balas são acessíveis, custam cerca de euro e meio por litro em qualquer gasolineira. As rajadas são traiçoeiras, feitas de ultrapassagens à segurança dos outros.

Dia após dia, cruzo-me com eles no asfalto de batalha. Têm pressa, mal podem esperar pelas importantíssimas insignificâncias que os esperam. Ontem encontrei um no IC19. Veio da esquerda, cruzou em diagonal três faixas, forçou a existência de um espaço à minha frente, para finalmente, já em cima do risco contínuo, enveredar por uma saída. Fiquei fascinado com tamanha proeza, plena de audácia e de destreza. No vídeo-jogo, em que aquele condutor vive, depois gastas as três vidas basta recomeçar. Mas na vida real que lhe parece ser estranha, game over traz sangue e lágrimas.

Cada país tem o seu massacre, seja pela mão de pessoa colectiva ou individual.



Amy

Nunca compreendi como era possível empurrar a Amy Winehouse para um palco em estados catastróficos de bebedeira, quando seria evidente o desastre. Ela era um freak show a explorar. As suas ocasionais humilhações em palco criavam buzz e publicidade gratuita, só isso explicava como agentes ou responsáveis pela sua carreira a deixavam expôr-se repetidamente nessas situações em vez de cancelar o concerto. Tinha o ar de ser uma pessoa totalmente à deriva do próprio talento e que este era também uma maldição. A morte dela não é uma surpresa mas talvez por isso mesmo seja mais triste ainda. Porque ninguém a salvou?






E valeu a pena porque o kill death ratio do Breivik foi de uns 80/0 e teria sido mais se os miúdos pudessem fazer respawn.


Há mais de 100 milhões de jogadores de consolas PS3 ou XBOX 360, mais outros tantos em PC em todo o mundo e pelo menos 80% serão homens que jogam a First Person Shooters o que dá uns 160 milhões de pessoas altamente treinadas em matança de noobs desarmados e encurralados.





Política de alianças.



Tempo houve em que a extrema-direita, no tempo em que respondia por nazismo e fascismo e usava camisas cor de morte, tinha no muçulmano um dos seus aliados dilectos. E esse tempo durou até depois, muito tempo depois, de terminada a II Guerra Mundial. Era necessário salvar muita gente e a Síria, o Líbano e o Egipto, entre outros, foram portos seguros. Eram os tempos do “judaísmo internacional” e também do nacionalismo árabe e da autonomia da Palestina e por isso muita Esquerda europeia assobiou para o lado e fingiu que não viu. Não tinha Molotov assinado um pacto com Ribbentrop? Os tempos agora são do “multiculturalismo” e da “colonização silenciosa da Europa”. E o “judaísmo internacional” já tem Estado. E está ali, cravado no meio. Para a Esquerda e para a Direita. Nada de novo, portanto.

[E a Esquerda sempre, mais rápida que a própria sombra, na procura da justificação e da causa das coisas, agora, que os criminosos sérvios estão todos sentados em Haia, nunca lhe passou pela cabeça vir aqui. Adiante…]

Apesar da crise, iluminação total na balança de transacções correntes.

Esta nova mesa de matraquilhos deve ser a única forma possível de treinar os seguintes jogadores: Moreira, Luisão, Carole, Jardel, Pereira, Amorim, Javi, Gaitán, Jara, Weldon, Saviola, Artur, Wass, Léo (?!), Almeida, Coelho, César, Matic, Pérez, Pinto, Mora, Nolito, Melgarejo, Oblak, Rosa, Simão, Ureta, Balboa, Rodrigo e Nelson (total de 30 efectivos), sendo que ainda existem dúvidas sobre se ligam a luz mais 13 (Garay, Ansaldi, Danilo, Romeu, Mangala, Dedé, Angel, Witsel, Sarabia, Ruiz, Damião, Ávila, Stracqualursi), e não ser ainda certo que outros 9 (Roberto, Roderick, Peixoto, Martins, Aimar, Salvio, Fernandez, Cardozo e kardek) desliguem ou não a luz.
Repare-se que entre estes 52 atletas só existe um com apelido começado em B de Benfica: o Balboa. É de facto muito estranho.

Eles procuram abrigo.

Nisto dos putos e das canções e gerações e protestos, estas coisas giras que ciclicamente acontecem com todas as gerações saudáveis, tenho visto exemplos de cinismo e maldade para com os putos e as suas manifestações.

Não gosto de ver essas personagens na minha própria geração (76), nem daí para baixo.

Admito isso nos velhos lógicos, senhores com alguma idade e com a 4ª classe, que têm uma visão do mundo formada pelo Correio da Manhã e que ligam para o Fórum TSF, ou nas tiazecas que vivem em microcosmos ou no Pacheco Pereira.

Mas não em pessoal de 30 e tal anos que cresceu a ouvir rock e com o Herman José e que ainda apanhou a Internet na universidade.

É legítimo e útil criticar as reivindicações, questionar a utilidade da manifestação, mas não o sintoma em si, não o carácter dos jovens, não o serem preguiçosos, baldas, mimados, desinteressados, decadentes, indisciplinados ou ignorantes... Pensemos antes que coisas como o eventual desinteresse de uma geração pode ser um sinal que o que existe agora é desinteressante e nós é que já estamos tão condicionados por esta merda que nem questionamos as coisas que nos obrigaram a engolir.

Às vezes acho que as pessoas fazem isso porque se sentem ressentidas de terem tido de abdicar dos seus próprios sonhos para se encaixarem em rotinas miseráveis e massacrantes, com as vidas pessoais subjugadas a empregos claustrofóbicos, em que grande parte do problema é precisamente aturar algumas pessoas da geração anterior, a que manda em nós e define regras por vezes absurdas e irracionais.

E muito menos, nunca, jamais, never, com o disparate de se considerar uma nova geração pior que a anterior, pior do que a própria.

A única coisa que pode haver é uma preciosa ingenuidade, comove-me que os putos estejam chateados. O cinismo ácido que tenho visto por aí... É na desconfiança da geração seguinte que reside o primeiro e mais grave sintoma de estar velho.

Para um puto entalado numa vida sem perspectivas, o primeiro verso de gimme shelter dos Stones é mais do que o primeiro verso de gimme shelter dos Stones


Yeah, a storm is threatening
My very life today
If I don’t get some shelter
Lord I’m gonna fade away



Adeus

E obrigado. 
Tudo o resto fica para depois.
Para já, ficam apenas as memórias boas. Especialmente aquelas que a fotografia ilustra.
Tudo o resto fica para depois.

Filosofia e Touros - Francis Wolff

Para Francisc Wolff, a corrida de toiros não é tanto uma reminiscência dos valores guerreiros do homem, mas sim “a ritualização, a sublimação de uma violência natural”. “È um espectáculo da modernidade [os seus contornos actuais datam do início do século XX]”, garante. Um espectáculo que, para ele, é, “ao mesmo tempo, injusto e leal”.

Uma provocação: quem não gosta da Festa Brava, acusa-a de ser um espectáculo bárbaro e violento. Como um filósofo, um homem do pensamento, gosta dessa arte?
Gosto e não acho que ela seja bárbara. A barbaridade aconteceria se o animal e o homem lutassem no mesmo plano de igualdade. Ou se o combate não fosse leal. A característica no combate entre o homem e o animal na tauromaquia é que ele é, ao mesmo tempo, injusto e leal. Ou seja, se fosse justo – igual entre os dois – seria absolutamente bárbaro na relação com o homem. Se não fosse leal – se fosse um espectáculo de tortura em que o animal não teria a oportunidade de combater, de lutar – aí seria bárbaro na relação com o animal. A corrida de toiros é o espectáculo da luta desigual e leal de um homem contra um animal. Um animal que é bravo. Ou seja, de um animal que, por natureza, tem esse instinto de viver livre e rebelde no campo e de querer morrer combatendo para defender o seu território e a sua vida. Por isso, a corrida de toiros é o espectáculo da vida e da morte, que nada tem de bárbaro.
Pode dizer-se que o fascínio que a corrida de toiros ainda hoje provoca tem origem na ideia que transmite do antigo guerreiro que procura morrer combatendo… Homens que hoje não lutam, encontram ali o passado guerreiro?
Obviamente, a corrida de toiros denota esses valores e virtudes antigos de Cavalaria, de combate em busca da glória do campo da batalha. Mas, ao contrário do que muitas pessoas podem pensar, a corrida de toiros, na forma que a conhecemos, nasceu no século XVIII. E a forma em uso surgiu no início do século XX. Ou seja, a corrida de toiros actual é um espectáculo ligado à modernidade. Porque representa um certo gosto por um certo tipo de expressão artística que tem a ver com a modernidade e não com a apologia da violência ou da brutalidade. É exactamente o contrário: a ritualização, a sublimação de uma violência natural. Tomemos o exemplo da morte: hoje em dia, a modernidade tem escondido cada vez mais a morte. Tem-na desritualizado. Fê-lo por vários motivos, nomeadamente a queda do sentimento religioso, da perda das relações de familiaridade com o ritual quotidiano. Justamente o que mostra a corrida de toiros é a importância da ritualização para entendermos o sentimento profundo da morte. Morte necessária do animal – porque qualquer ser vivo tem de morrer – ou da morte possível do homem. De tal forma que a corrida de toiros nada tem a ver com a apologia da guerra, que podemos encontrar na antiguidade grega ou romana – onde a violência bruta e crua era o centro da atenção. O que os aficionados gostam é do espectáculo da sublimação da violência, através da beleza do combate. 

Será por isso, então, que muitos académicos e eruditos têm vindo a escrever e pensar a tauromaquia?Sim. A corrida de toiros não teria o menor sentido se não estivesse integrada numa cultura geral. E tem-no em duas vertentes: de um lado, a cultura taurina dos povos mediterrânicos, que tem uma relação especial com o toiro de lide; do outro, a cultura no sentido mais amplo da palavra, através da pintura, da escultura, da poesia ou da literatura. Para sabermos se uma coisa é cultural ou não, basta saber se ela gera obras de outro tipo. É o caso da corrida de toiros, que sempre chamou a atenção dos criadores, dos artistas e dos pensadores. E fê-lo porque é uma arte que, ao mesmo tempo, é muito idiossincrática de certos povos e assume um valor universal, ao expressar o sentido da morte, de transformar o medo da morte em beleza, de estilizar a sua existência. A luta do toiro pela sobrevivência é, ao mesmo tempo, necessária – porque é a definição da vida – e um fracasso – porque cada vida tem por fim a morte. Por muitas razões, a corrida de toiros sempre chamou a atenção dos artistas. 
Paco Aguado, jornalista da revista “6Toros6”, na sua intervenção no Fórum Mundial da Cultura Taurina, dizia que “gerações e gerações de espanhóis, portugueses, franceses e americanos, foram às praças de toiros, aprendendo ali o sentido real da vida”. Concorda com esta ideia?Em qualquer tipo de grande expressão humana qualquer pessoa pode encontrar todos os valores e todos os sentidos da vida. Não vou dizer que a corrida de toiros é mais que as outras formas de expressão nesse sentido. Até porque cada povo tem um modo particular de expressar os seus valores e o sentido da vida. Contudo, entendo que, na relação entre o homem e o toiro, a tauromaquia teve, em certos momentos, essa capacidade. Acontece que, hoje em dia, por muitos motivos – e nem todos maus – as novas gerações têm outros modos de encontrar o sentido da vida. E, dessa forma, não reconhecem na corrida de toiros o veículo de percepção do sentido da vida. Por isso, a tauromaquia é apelidada de arcaica, antiga, etc. Mas há uma grande diferença entre a tauromaquia e as outras formas de expressão (que também têm o seu valor, muitas vezes de enorme excelência): ela sintetiza, de alguma forma, os valores do desporto (porque comporta uma expressão atlética), da arte (porque comporta uma expressão da beleza e do sublime), do rito religioso. Ou seja, a tauromaquia é uma forma artística que não pertence a um género em particular. E onde cada um pode encontrar nela um certo sentido. E que quem, realmente, gosta da corrida de toiros sabe que pode, através dela, gozar de todas as formas de valor que vai encontrar individualizados noutras formas de expressão. 
O que o atrai, enquanto filósofo, na tauromaquia? Escrevi um livro que se chama “Filosofia da Corrida dos Toiros”. E aí sintetizo esta ideia: a corrida de toiros pode dar uma certa experiência concreta de algumas ideias gerais da Ética, da Estética e, de certa forma, da Metafísica. No fundo, a tauromaquia garante a realização de algumas ideias que, como dizia Platão, só existem no plano das ideias. Por exemplo, a ideia da coragem: pode não ter uma realização dela, mas na corrida de toiros vê-se essa ideia. Mas se procurasse algo particular que me tenha ensinado a corrida de toiros, dizia-lhe o seguinte: os gregos tinham uma só palavra para designar o “Belo” e o “Bom”, a palavra “Kalos”, que significa “Admirável” – ou seja, é admirável por ser harmónica e meritória. No mundo moderno, o “Belo” é sempre separado do “Bom”. O “Belo” é o reconhecimento da estética de algo. O “Bom” é o reconhecimento de acções. Mas, na corrida de toiros, a mesma coisa, o mesmo momento, o mesmo gesto, a mesma acção é “Bela” porque é “Boa”, ou seja, porque é meritória, valorosa e, por isso mesmo, é a personificação da Beleza. Quando vê uma “suerte” em que o matador permanece imóvel, mas consegue “estendê-la”, aí reconhece a sua beleza e, ao mesmo tempo, o seu mérito. Outra perspectiva desta ideia: a “Beleza” é o uso do mínimo de meios para conseguir os máximos fins – mínimo de espaço, de tempo, de mobilidade, para conseguir o máximo de efeito sobre a investida. É justamente isso que, ao mesmo tempo, personifica o mérito do toureiro e a beleza da sorte. Isso é algo que não vejo unida em nenhuma outra forma de expressão. 
Os latinos, por natureza, são um povo de sentimento, onde o coração e a emoção falam mais alto do que a razão. Como foi possível que tenham sido eles quem sublimou a morte e a violência através da ritualização da corrida de toiros? Encontra alguma justificação para isso?Não encontro qualquer explicação para essa idiossincrasia particular desses povos. Acho que todos os povos têm uma maneira de expressar as suas emoções. No caso dos latinos, essa expressão aproveitou-se de uma relação especial que, ao longo de séculos, tiveram com o toiro. O toiro que, ao mesmo tempo, é respeitado, objecto de culto, e de projecção da suas emoções e dos seus valores enquanto ideal humano, mas também alvo de receio, de medo. Acho que é essa a razão de ser profunda que explica a presença tão forte da tauromaquia nos povos latinos. É óbvio que tudo terá ver com o modo de ser e estar desses povos. Mas, acho que a corrida de toiros, contribuiu para moderar a alma desses povos. Não será só o resultado da sua vontade de expressão da sua alma, mas também a forma que lhes foi moldando essa alma.
 Vários grupos contestam as corridas de toiros, acusando-as de serem bárbaras e atentatórias dos direitos dos animais. Mas, ouvindo as suas respostas, denota-se que a corrida de toiros é muito mais do que o desafio puro e simples da razão do homem ao coração do toiro. Como poderá essa expressão, então, sobreviver a essa contestação, numa sociedade onde a urbanidade se tem vindo a tornar preponderante na escala de valores?O anti-taurinismo tem razões profundas e, ao mesmo tempo, de moda. Uma das razões é o facto de que a urbanidade fez perder a ligação do homem com a natureza, com a ruralidade. Muitas pessoas têm uma ideia completamente adocicada da natureza. Vêem o reino animal como uma espécie de conto de fadas, como nos desenhos animados de Walt Disney, em que todos os animais são bons, em que todos são como os gatos, carinhosos e fofinhos. É muito complicado explicar o que significa o toiro e a bravura a quem interiorizou essas ideias. É muito complicado explicar-lhes que os toiros são animais que lutam permanentemente entre si, que a luta é algo que está na sua condição de ser, de existir. Por isso, defendo que as crianças e os jovens devem contactar com o campo, com a ruralidade, têm que ver o que é o toiro de lide, a forma como os ganadeiros criam, respeitam e ama os toiros de lide. Sentimentos que são exactamente contrários à industrialização, à mercantilização, ao rendimento económico que, por exemplo, assistimos nos McDonald’s, onde os produtos do campo não são apresentados como resultado de uma actividade mas como algo que surge, sem mais nem menos. Se um adolescente tiver este contacto com a natureza e perceber que os valores ecológicos em que acredita, os encontrará muito mais na relação especifica que temos com o toiro de lide do que com outro animal domesticado ou criado. Aí poderá mudar de ideias e, em boa verdade, mudar o preconceito que tem sobre o assunto. Ou, pelo menos, ganhar uma nova consciência sobre a tauromaquia, não apoiando protestos que recorrem a argumentos básicos e preconceituosos.